sábado, 16 de julho de 2011

TIPOS POPULARES DE MINHA TERRA.



INTRODUÇÃO. 

Há muitos anos alimento o desejo de escrever algo sobre algumas figuras folclóricas de nossa cidade. Principalmente sobre aqueles tipos populares que foram meus contemporâneos, os quais tive o prazer de conhecer e o atrevimento de provocar um ou outro quando eu era criança, sem juízo. De uma forma bem peculiar e singela eles faziam a diversão da molecada.
              No entanto, para levar a cabo o meu desejo, sempre me faltavam treis coisas: Tempo, oportunidade e capacidade. Agora, tendo conseguido os dois primeiros, estou tentando realizar meu desejo, mesmo correndo o risco de ser ridicularizado por quem não entender o poema ou não tenha conhecido tais figuras. Quem não as conheceu perdeu!
           Os leitores mais novos provavelmente não os tenham conhecido. Porém, os leitores mais maduros, os quarentões para cima, certamente conheceram alguns, quase todos ou todos. Assim, se lembrarão do passado e de tudo o que está sendo narrado. Então, peço aos mais novos mostrarem este texto ao papai, à mamãe e até aos vovôs. Algum deles se lembrará de um ou outro ou de todos os tipos citados. 
          Quanto à capacidade, não consigo obtê-la. Assim, estou substituindo-a pelo esforço, pela perseverança e pela coragem.  O resultado aí está. Se gostarem, digam para os outros; se não gostarem, digam para mim. Quem me elogia deve ou pode ser meu amigo; quem me critica pode até ser meu inimigo, mas não deixa de ser meu professor!
         A seguir, a “obra literária” do século, escrita em versos e que posteriormente será transformada em prosa.

MESMO estando no presente, com os lhos da minha mente,
eu olho para o passado.
Vejo ao longo desta vida, pessoas muito queridas,
de quem tenho recordado.
Foram muitas criaturas, com quem tive a ventura
de conviver dia a dia.
Verdade, algumas marcaram; outras nem tanto, passaram,
mas, deixaram nostalgia.
Ainda trago na mente, uma afro-descendente
que vivia reclamando.
Quando alguém a provocava, numa pedra já pegava
e ia logo atirando.
Essa dona existiu; não sei de onde saiu,
nem pra onde ela ia.
Tal pessoa foi real; gostava de carnaval,
e seu nome era Maria.
Maria não sei de quê! Eu vou contar pra você
o jeito que a coisa é:
Quando a gente não sabia, toda “dona” era Maria,
e todo homem era José.
            Relatando bem o fato, eu quero dizer no ato,
            para não falar mentira.
            Além do nome Maria, essa dona parecia
            chamar-se também Jacira.
Outro que deixou saudade: Aristides Pires Andrade,
era essa a sua graça.
Mas foi com um codinome, que esse bondoso homem
ficou famoso na praça.
O codinome que eu digo, e guardo sempre comigo,
está na mente do povo.
Não era Zé, nem Joaquim; João, Raimundo, Serafim...
Era Tide Bota-Ovo.
No lugar onde ele estava, a gente sempre pensava
tratar-se de um pagode.
Enrolado ele dizia, para toda a freguesia:
-Morrer, não; casar pode!
Esse Tide Bota-Ovo, tão popular entre o povo,
era um sujeito simplório.
Bem alegre sempre estava, pois as festas freqüentava,
e não perdia um velório.
Duas coisas que o mesmo, já ia xingando a esmo,
quando ouvia alguém dizer:
Primeiro, o “ir pra Iguatama” acendia logo a chama,
e depois, “corre que vai chover”!
Dando prova de bom gosto, estava sempre disposto
a desposar uma “boneca”.
Porém com gestos dizia: “Casar com Vânia queria”,
mas jamais com a “Leleca”.
                        Falante que nem um cravo, logo já ficava bravo,
                        quando ouvia alguém dizer,
                        Treis coisas que não gostava, e de repente apelava:
                        “Chover, trabalhar e morrer”.
O Manga-Manga, coitado! Com aquele saco pesado,
tombando, pra lá e pra cá.
Porém a gente sabia, que aquele saco servia
pra ele se equilibrar.
Até que o fatal destino
impôs ao pobre “menino” triste sina, que horror!
Numa tarde de má sorte,
o pobre encontrou a morte, debaixo de um trator.
A bem da pura verdade, não foi trator o covarde
que tirou-lhe a luz do sol.
Não foi carro, nem foi moto; alguém deve ter a foto
daquela horrenda patrol.
Tinha também o Mudinho, com seu cabelo branquinho,
maldoso que dava medo.
Se alguém o provocava, fingia que não ligava,
mas se vingava em segredo.
Conforme o registro diz, o seu nome era Luiz,
alcunhado de Paguega.
Do tal nenhum agressor escapuliu do pavor
de levar uma refrega.
Se o agressor descuidava, Paguega se aproximava,
pé por pé, bem na espreita.
Quando o gaiato atinava, já sentindo dor notava
que a vingança estava feita.
Foi pioneiro, de fato; mesmo sem ter aparato,
da propaganda ambulante.
Ninguém entendia nada, mas o pobre camarada
insistia em ser falante.
De tabuleta nas costas, sempre fazia a mostra
do filme a ser exibido.
Mau, ranzinza e rabugento; vez ou outra, violento,
mesmo assim era querido.
Meu Deus! E o Zé Alexandre, de esperteza bem grande,
mas era muito ranzinza.
Na porta do bar, sentado, não viu o cavalo queimado,
Só viu o monte de cinza.
Bêbado que nem um gambá, estava sempre a falar,
não tinha nada de mudo.
Sempre muito enfurecido, normalmente aborrecido,
mas tinha resposta pra tudo.
E o artesão Chico Mala? Com aquela mansa fala,
quando moldava escultura!
Naquele tempo era banal, porém no mundo atual
é uma prova de cultura.
Sendo ele artesão, moldava o barro na mão,
porém com muito carinho.
Para nós, a molecada, que não entendia nada
era só  fazedor de bichinho.
O fazedor de bichinho trabalhava com carinho,
mesmo sendo ruim da vista.
Ninguém prestava atenção, mas esse tal artesão
hoje seria um artista.
O vetusto Antônio Coador, para os meninos um terror,
com seu machado na mão.
De casa em casa ficava, picando lenha e empilhava,
porque gás não tinha, não.
 Roupa tosca e pés no chão, esse pobre cidadão
não era lá muito bravo.
Certeza, ninguém sabia, mas muita gente dizia
que seu pai fora um escravo.
De cor preta, bem escura, essa pobre criatura.
não tinha aparência bela.
Do asseio não cuidava, e seu olho sempre estava
lambrecado de remela.
Lembrando melhor do fato, quero fazer o relato,
sem soberba e com pudor.
A bem da pura verdade, afamou-se na cidade
a remela do Coador.
Tinha o trio parado dura, composto por criaturas,
que detestavam pivete.
Não sei qual o mais quadrado, mas era tudo engraçado:
O Saracura, o Casa-Hoje e o KB7
O Zé Lajinha xingava, quando a gente recitava
o versinho popular:
“Virei tico-tico, virei sabiá; virei Zé Lajinha”.
de pernas pro ar”.
E a Maria Caxuxa?! Se ela usasse garrucha,
atirava pra matar,
quando algum engraçadinho, declamava os versinhos,
que ora vou recitar:
                                    -”Maria Caxuxa, com quem dorme tu”?
                                   -“Eu durmo sozinha com o dedo no... ouvido”.
Tinha outros diferentes, porém tudo boa gente.
não tinha nenhum atoa.
Boa Prosa, Rei da Capa e Realino; Amerquinho e João Balduino,
Inês Doida e Geralda Bedoa.
Existiam outros tantos, cada um com seu encanto,
uns sisudos, outros contentes.
O tempo passa e repassa, a gente lembra da graça
que havia naquela gente.
De todos o mais contente, sobretudo boa gente,
era o Tide Bota Ovo.
De tal forma acostumado, quando não era aboiado,
ele é que aboiava o povo.
Quase todos já morreram; os vivos não esqueceram
dessa gente tão querida.
Certamente estão felizes, apreciando os matizes
do outro lado da vida.
Um deles, por pura sorte, não foi pro vale da morte,
como a turma toda fôra.
Ele é muito conhecido, mas anda meio sumido:
É o grande Tião Vassoura.
Vou parando por aqui, queria até prosseguir,
mas falta capacidade.
Se persistir, eu consigo, mas pode ocorrer comigo,
me derreter de saudade.
Saudade daquela gente, que vivia bem contente,
sem luxo, sem preconceito.
E todas elas estão, pra minha satisfação,
Do lado esquerdo do peito.



segunda-feira, 11 de julho de 2011

O homem e o cão: Diferenças e semelhanças.

O HOMEM e o cão são, a meu ver, bem parecidos. Creio que o são também na ótica de qualquer pessoa que lhes observar comparativamente. Todavia, ao mesmo tempo possuem diferenças marcantes, devido às características de cada espécie. É o caso de se dizer que são iguais, mas são diferentes. Não só no físico, como também na constituição do psiquismo, o que os torna racional e irracional. O homem a que estou me referindo, e vou mencionar outras vezes, é gênero humano, e não o feminino e o masculino, homem e a mulher. Assim como o cão em referência, aludo-me a toda a raça canina, e não ao macho e a fêmea.
SÃO PARECIDOS porque nenhum dos dois tolera muito um outro ser da mesma raça.  Os cães sempre gostaram mais do homem do que de outro cão, da mesma forma que o homem também hoje já prefere um cão a um outro homem, uma vez que aquele é muito mais confiável do que este. O homem convive com outros homens por necessidade social e afetiva, da mesma forma os cães convivem com outros cães pelos mesmos motivos. O cão e homem são animais gregários, ou seja, necessitam viver coletivamente, em comunidade, no caso do homem, ou em manada ou matilha, no caso dos cães. Ou ainda em alcatéia, no caso de lobos.
ESSE FATO acontece porque ninguém está podendo confiar em ninguém. Assim como um homem não é mais confiável para outro homem, um cão também nunca o foi para o outro. Observem que quando dois cães desconhecidos se aproximam um do outro, eles o fazem na maior desconfiança, rosnando e cheirando as partes íntimas do outro. As rosnadas e as cheiradas são recíprocas: um cheira o outro; o outro cheira o um. Já pensaram na cena de um homem cheirando as partes íntimas de outro homem em público? Credo em cruz! Toc, Toc, Toc. Agora, em se tratando de cheirar uma beldade, eu mesmo faria esse sacrifício.
ALÉM de outras similaridades, há também diferenças marcantes em decorrência da racionalidade de um e da irracionalidade do outro. O cão é muito mais confiável e fiel do que o homem e muito menos interesseiro. Enquanto o cão só deseja abrigo, alimento e carinho, o homem quer tudo pra ele. E não escolhe atitudes decentes para conseguir. Entre um cão e outro, também há competição devido ao caráter irracional deles, porém só no tocante ao alimento ou a uma cadela no cio, enquanto o homem compete com o outro em tudo e por tudo. E, muitas vezes, deslealmente, dissimuladamente. Na moita!
QUANDO um cão não vai com a fachada de alguém, é quase certo que esse alguém represente algum perigo para ele ou para seu dono. Pode ser também que esse alguém já tenha sido hostil com ele alguma vez. Ao contrário do homem, o cão não finge; mostra logo os dentes. Além disso, o cão tem facilidade de perceber maldade nas pessoas, mesmo que elas não a externam. O cão também tem a capacidade de perceber quando há maus fluídos por perto ou quando o ar está “carregado” nas proximidades de seu reduto ou perto de seu dono. Perceba que o cão, quieto, costuma levantar de repente e começa a aspirar algo no ar. Minha cachorrinha age assim com freqüência.
UMA OUTRA diferença marcante entre o homem e o cão é o acolhimento. Quando a uma casa chega uma pessoa conhecida do dono e do cão, o cão a recebe com muito mais alegria do que o dono. Mesmo o dono estando feliz com a visita, o cão se mostra muito mais feliz ainda. O cão fica tão eufórico que costuma deitar de costas, oferecendo a barriga a um carinho do visitante. Minha cachorrinha age dessa forma. Depois de muita euforia, ela vai deitando de barriga pra cima para ser acariciada pelo pé do visitante. O amigo leitor já pensou no fato de chegar a uma casa e o dono, eufórico, já ir deitando de costas para receber um carinho?  Deve ser uma cena bem estranha e duvidosa.
QUANDO alguém quer agredir, ofender ou revidar ofensa e grosseria de outra pessoa, diz logo assim: “Você, para cachorro só falta o rabo”! Ledo engano. Não falta rabo nenhum. Como o cachorro, o homem também tem rabo. Só que o do cachorro protubera pra fora, o do homem se projeta para dentro. Vejam bem: quando não estamos satisfeitos com um objeto que está em nosso poder ou nos sentimos na iminência de conseguir algo que não vai agradar, revoltados, logo dizemos ou, no mínimo, pensamos em dizer: “Ah, não quero isso, não! Enfia no rabo!” “Pega isso e enfia no rabo!” E também muita gente gosta de se vangloriar, dizendo:” Eu não tenho o rabo preso!” Pelo menos no sentido figurado, o homem possue rabo. Agora, cauda já é bem diferente.
DIZEM por aí que o homem confia no cão, porque este ainda não conhece dinheiro. Por outro lado, o cão confia cegamente no homem porque não tem a capacidade de entender a maldade que o homem traz no coração. Se o cão conhecesse dinheiro, o homem teria que combater duplamente: com o cão e com outro homem. Felizmente ele não conhece o vil metal, não tem interesse em nenhum bem material supérfluo e se satisfaz com muito pouco, apenas com o necessário para sobreviver e continuar fiel ao dono ou à família a que pensa pertencer. Na realidade, algumas famílias têm o cão como um membro dela.  Ressalvados os exageros e as frescuras, pois cão é cão, gente é gente, eu penso que os cães e todos os animais devem ser tratados com zelo e carinho.
A BEM da verdade, essa tendência do homem preferir o cão a outro homem é bem antiga. Há cerca de 60 anos o Barão de Itararé já dizia: “Quanto mais convivo com os homens, mais eu gosto dos cachorros”. Se naquele tempo, quando o homem ainda era mais recatado, mais decente, mais humano e não mostrava tanta maldade e mesquinharia, alguém já escrevia um manifesto assim, imagine hoje o que esse alguém diria face ao ponto a que a perversidade humana chegou.  Como já disse um grande cantor sertanejo, um dos melhores que já vi: “É melhor ter um cachorro pra ser amigo, porque o amigo cachorro só faz traição”. De certo tempo para cá, a exemplo de muita gente, também tenho pensado assim. Motivos não faltam.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O dicionário, segundo minha mãe. E meu pai também. Parte final.

Quando os irmãos são unidos, um costuma ajudar o outro a se livrar de um castigo materno ou paterno.  Assim, um de nós, ou todos, tentava ajudar o outro a se esquivar de uma culpa junto aos pais, usando desculpas, subterfúgios ou mesmo mentiras. Usando seu rico vocabulário, nossos pais já diziam: “Dexa de sacrafúgio, minino, oceis tão é de culeio”. Sacrafúgio já mencionei logo atrás; culeio, ainda não. Com o tal culeio, eles queriam dizer que a gente estava de CONLUIO, o seja, combinado, pactuado, mancomunado.  A propósito, o culeio ou conluio é uma estratégia muito usada pelos políticos para favorecimento mútuo. Não é fácil encontrar um político em atividade que não esteja em conluio com alguém. Os políticos mais antigos, mais rudes e menos alfabetizados, usavam culeio; os de hoje bem mais cultos, usam conluio para ficar linguisticamente corretos, mas moralmente muito incorretos.

Toda criança normal é curiosa. Não sendo muito tímida e tolhida em sua liberdade, ela gosta muito de ficar fazendo perguntas sobre as coisas que lhe cercam e sobre os assuntos dos adultos. No meu tempo, embora mais retraídas por causa da disciplina, a gente também, costumava fazer muitas perguntas, não tanto constrangedoras quanto as feitas pelas crianças de hoje. É cada pergunta, que dá até para corar os mais velhos!  Nossos pais, às vezes por causa da rudeza, paciência e incultura, não respondiam com muita eficiência, já chamando a gente de espicula.   “Ocê é muito espicula, minino! Dexa de ser inxirido”!  Espicula! Que gracinha! Até me arrepio de lembrar.  Esse espicula eles tiraram do verbo especular, que tem dois sentidos: O primeiro é relativo a espelho; a brilho semelhante ao do espelho. O segundo, significa estudar com atenção; meditar; raciocinar; colher informações sobre alguma coisa. Significa também encontrar formas de ganhar dinheiro no mercado de capitais. Com certeza não era neste último sentido que eles utilizavam o “xingamento”. Era no sentido de ser intrometido mesmo, curioso ou “inxirido”, de acordo com o vasto vocabulário deles.

O mais surpreendente nesta história é que foi essa mulher, analfabeta, que me mandou pra escola. Foi essa mulher que mesmo não sabendo o beabá me incentivou a estudar pra arranjar um emprego “bão”, segundo ela mesma dizia, Era essa pobre mulher que fazia café de manhã, quando tinha pó, pra gente tomar e não ir para a escola em “jejum natural”, conforme ela dizia. Essa senhora era a mesma que fazia sopa de macarrão para eu engolir correndo, sem mastigar, e não chegar atrasado no Ginásio Estadual, no Colégio Comercial e, tempos depois, na FAFI-FUOM. No início, antes do macarrão, eu tomava um banho na água que ela havia esquentado no fogão a lenha, por falta de um banheiro decente. Sou nada, mas o nada decente que sou devo a essa humilde criatura, cuja timidez não a deixava carinhar fisicamente os filhos.

Terminando, antes que eu leve uma “currumaça” de xingamentos, uma vez que estou “estrovano”, já que vocês devem estar querendo ir comer uma “ treta”, vou fazer apenas uma pergunta. Imagino que ninguém vai saber me responder, mas vou fazê-la assim mesmo, não obstante também possa parecer pergunta idiota e me considerarem “espícula”: Por que as mães morrem? Se eu fosse Deus, não deixaria nenhuma mãe adoecer, e muito menos morrer, mesmo sabendo que elas merecem o céu. Elas fazem muita falta para os filhos, mesmo estes estando com o cabelo branquinho e se locomovendo de bengala. Aí é que elas fazem falta mesmo! Uma boa mãe é o céu aqui na terra. Mãe é uma coisa tão boa e tão necessária que até Jesus, mesmo sendo filho de Deus, precisou ter uma.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O dicionário, segundo minha mãe. E meu pai também. Parte 3

A minha genitora, por incrível que pareça, também era criadora de vocábulos. Foi ela quem criou o verbo “limirar”. Perto de minha casa (se é que podia chamar aquilo de casa) havia uma senhora chamada Limira, que era muito bisbilhoteira e pidona. Sempre que alguém comia algo perto dela, ela ficava olhando e, ás vezes, pedindo um pouco daquilo. Assim, quando a gente olhava com insistência alguém comendo, ou ficava de olho em qualquer coisa de comer, minha mãe logo dizia: “Pára de limirar, minino! Que coisa mais feia! - Cê nunca viu trem de comer, não”?  Trem de comer! Meu Deus! Que coisa mais original; que trem mais mineiro! E como é gostoso um trem de comer! Quanto menos trem de comer a gente tem, mais gostoso ele fica. 

Frequentemente, de manhã, ela falava assim: Vou dar um jeito de fazer um “tirijun” pro ceis. O tirijun dela seria tira-jejum ou desjejum, como dizem as pessoas finas e farturentas. Como nunca havia o material completo para um bolo, pois faltava ovo, ou leite, ou farinha de trigo, ou faltava tudo, ela fazia angu-doce, ou morimbo, que era um fubá comum cozido, sem nada junto. O angu-doce não tem segredo, era apenas angu com açúcar. Ou às vezes a gente comia farinha com açúcar, ou não comia nada e ficava tudo bem, conforme Deus determinava. A gente nunca comia mexido pela manhã porque nunca sobrava comida do dia anterior, quando tinha, é claro. Se sobrasse, perderia, pois não havia geladeira pra conservar.

Quase toda criança gosta e faz parte de uma turminha. Eu, quando criança e adolescente, não fugia à regra. Como eu era o mais estudioso, ou melhor, o menos burro, exercia uma pequena liderança sobre os demais. Mesmo assim, meus pais não gostavam de me ver enturmado com pessoas que poderiam me desencaminhar, tendo em vista a turma ser muito levada e o ambiente propício de bairro muito pobre. Assim, meus pais chamavam minha turma de ganga ou de culundria.  Ganga, tudo indica que seja gang; culundria me dá a impressão que eles queriam dizer quadrilha. Aliás, tenho certeza de que era isso mesmo. Ainda bem que eram só arroubos juvenis, traquinagens sem nenhuma conseqüência e sem manutenção de nenhum hábito pernicioso. Tenho tanta aversão a quadrilha e gang que nem político eu tive coragem de ser.    

Vez ou outra ela mandava um ou outro filho fazer alguma tarefa que o mesmo não queria. Assim, o desobediente inventava uma desculpa qualquer para se eximir da obrigação, ao que ela respondia: “Pára de arrumar sacrafúgio, menino”! , querendo dizer “pára de inventar subterfúgio ou desculpa”. Quando ela dizia alguma coisa que a gente discordava, até por já estar sabendo mais do que ela, logo ela dizia que a gente tinha a mania boba de botar “bistaque” em tudo o que ela falava. Traduzindo o “bistaque” dela para o português correto, vamos encontrar o vocábulo obstáculo, cujo significado todo mundo conhece. Até que ela sabia o significado das palavras e a hora certa de usá-las;  só não conhecia a grafia correta.
                             Continua dentro de alguns dias.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O dicionário, segundo minha mãe. E meu pai também. Parte 2

Abusando mais um pouco da paciência dos leitores, não posso deixar de recordar das pescarias que fazia com meu pai, lá na Cazanga. Era só começar armar chuva que ele já dizia: “Vamo imbora qui tá vino uma currumaça de chuva”. Imagino que ele queria dizer que ia cair um calhamaço de chuva, ou seja, ia chover muito, uma vez que tal vocábulo significa, entre outras coisas, grande volume, mas de papel em forma de livro. Não chamam um livro grosso de calhamaço?! Ou então, meu pai dizia: “vai caí uma canca de chuva”, querendo dizer pancada de chuva. Meu pai, sendo analfabeto, não podia ser nenhum filólogo, mas tinha um “extenso” vocabulário. Só não sabia pronunciar.

De vez em quando, depois de muita insistência de nossa parte, meu pai ou minha mãe deixava a gente sair. Mas, raramente deixavam de fazer uma habitual advertência: “não delata, não”, se delatá, vai apanhá”!  Com isso eles queriam dizer “não demora”, “não dilata o tempo”. Ou mesmo “vá, mas não me traia; não faça nada errado”. Pois, delatar significa trair, denunciar, etc. Foi o que Joaquim Silvério dos Reis fez com Tiradentes e seus companheiros e Judas Iscariotes fez com o mestre Jesus. Alguns pedreiros gostam muito de dizer que “a laje delatou; a parede delatou; houve uma  delatação”, enquanto querem dizer que a parede dilatou (trincou), a laje dilatou ou houve uma dilatação(abertura).

Eu sou um péssimo ciclista. Todo desengonçado. Sabem por quê? Por que nunca possuí uma bicicleta. Aliás, em matéria de diversão, não tínhamos nada. A gente nunca ganhava brinquedo.  Em todos os natais meu pai falava a mesma coisa: “Este ano eu não posso dar nada a vocês, mas no ano que vem eu dou”.  No ano seguinte era a mesma ladainha. A gente já sabia de cor. Ademais quando a gente conseguia uma bicicleta emprestada, meu pai não deixava a gente andar, e dizia assim: “Cuidado com esse treim, que isso vai dispingolar morro abaixo e não vai parar!” Na verdade, ele estava dizendo que a bicicleta ir disparar na descida, sair fora de controle, ou seja, degringolar.


Voltando à minha mãe, lembro-me também de quando a gente fazia alguma estripulia, ela dizia, “injirizada”, mais ou menos assim, porém mais severamente: “Ah, menino, quando seu pai chegar você vai apanhar a riviria”. Ao mesmo tempo em que ameaçava, ela dizia que quando o pai chegasse a gente ia levar uma baita surra, ou seja, ia apanhar à revelia, sem saber por quê. E não é que apanhava mesmo! Naquele tempo a gente apanhava, de verdade, às vezes até sem merecer ou não merecendo tanto. E eu não cultivo nenhum rancor por isso. Ao contrário, agradeço as carraspanas que meu pai me passava, às vezes até bem maiores do que a traquinagem cometida. 
Continua dentro de alguns dias. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Dicionário, segundo minha mãe. E meu pai também. (Parte 1)

Ao recordar o passado, da infância principalmente, lembro-me muito bem de minha mãe e das coisas que ela dizia. Minha mãe era uma mulher pequena, doente, pobre e analfabeta. A única cultura que ela conhecia, eram as plantações de que ajudava a cuidar desde criança, na propriedade de seu pai, meu avô, um carrasco segundo ela, que gostava de subjugar os filhos no trabalho, não importando a idade.  Parece-me que parte de sua doença surgiu daí. Entretanto, ela tinha uma cultura humana maravilhosa, representada pela dignidade, humildade e caridade.

Minha mãe era muito caridosa. Ela dividia o que a gente não tinha com os vizinhos que tinham menos ainda. Apesar de que era quase impossível encontrar alguém que tivesse menos do que nós. Mas, vez ou outra a gente se deparava com um mais desprovido, mais necessitado, pelo menos naquele momento. Foi com ela que aprendemos a não querer os bens só para nós. Aprendemos a dividi-los mesmo não sendo muitos. Graças a Deus somos uma família constituída de pessoas pobres, porém não egoístas, que não se furtam ao dever de ajudar os menos favorecidos.

Estas belas recordações trazem à minha mente as palavras que ela usava para identificar as atitudes e os gestos dos filhos. Eram palavras toscas, com o som e grafia errados, mas todas tinham muito fundo de verdade e retratavam a realidade que ela sabia expor, com aquela tosca sabedoria inerente aos incultos academicamente. Hoje em dia, levado pela curiosidade e capacidade de entendimento, eu tento traduzir, auxiliado pelo pai dos burros, a singeleza das palavras que ela e meu pai diziam. Parece que ainda sinto tais palavras ecoando em minha mente e no meu coração.

Por exemplo, quando a gente se aproximava dela indevidamente, inconvenientemente, ela, irritada, dizia: “Sai pra lá, mutrêco”! Ninguém entendeu, né? Nem eu entendia. De uns tempos para cá é que estou sabendo de que ela estava nos xingando. Ela queria dizer “monstrengo”, ou seja, coisa feia, disforme, de má aparência, ou coisa de sentido semelhante. Tem sentido, não tem?  Dizem por aí que para a mãe não existe filho feio, mas dependendo do estado de espírito dela e da peraltice que o pimpolho pratica, um majestoso príncipe vira um repelente sapo. Uma mãe, por muito boa que seja, também perde a paciência, principalmente quando vive na escassez, para não dizer miséria.

Uma outra palavra que ela falava quando a gente chegava perto dela com um objeto qualquer na mão, atrapalhando suas atividades: “Sai com esse estrandaco pra lá, menino”! Sabem o que ela queria dizer com tal palavra? Eu sei! Ela estava se referindo a estandarte, que significa, entre outras coisas, aquela bandeira que a “Porta Estandarte” conduz nos desfiles carnavalescos. Estrandaco passou a significar uma armação rude de madeira que facilita um acesso ou um trabalho em locais mais altos. Um andaime, desses que fazem na construção civil, é um “estrandaco”.  Durante muito tempo eu pensei que estrandaco era uma indaca dela, e de meu pai também.  

Como naquele tempo não havia fogão a gás, o nosso fogão era a lenha, é claro. Também, pra quê fogão se não tinha o que cozinhar? A minha mãe mandava a gente buscar gravetos nos matos próximos de casa para acender o fogo. Ela dizia assim: “Minino vai buscá graveto pra pispiá o fogo”. Com tal palavra estranha ela queria dizer principiar ou iniciar o fogo, o que hoje se faz na maior facilidade, com álcool. O fogão a lenha hoje é luxo, é charme, é elegante. Gozado, que naquele tempo a gente já tinha equipamento de luxo e nem sabia. Aliás, naquele tempo eu comia broto de bambu por necessidade, hoje, graças ao bom Deus, como para variar o cardápio.
Continua dentro de alguns dias.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ditados populares verdadeios, mas discutíveis - Parte 5 (Final).

O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM O CORAÇÃO NÃO SENTE:
Não funciona sempre. Só em alguns casos. Se assim fosse o coração do deficiente visual não sentia nada, uma vez que os olhos não enxergam.  O portador de uma mente clara e sensível não precisa ver determinada cena para sentir os efeitos dela. Quando se trata de sentir ou sofrer por pena de outrem, a pessoa sofre apenas pelas informações recebidas a respeito. Há inúmeras coisas desagradáveis que acontecem longe de nossos olhos, que a gente não vê nem na mídia, apenas ouve falar, mas sente e sofre só de pensar naquilo. A menos que se esteja vendo com os olhos da alma. Os nossos corações sentem pelo sofrimento de Jesus, mas nós não o vimos. Por outro lado, o deficiente mental enxerga as coisas mas não as transforma em sentimento. 
Eu tenho um grande amigo, contemporâneo, que ouviu falar que sua mãe, no passado, fora infiel a seu pai. Ele não viu, só ouviu falar, mas baseado na dedução de outros detalhes em torno do assunto, acreditou ser verdadeiro o boato, e sente até hoje os efeitos do fato, mesmo não o tendo visto. Os olhos não viram, mas o cérebro assimilou a informação, transformando-a em sentimento e sofrimento. Então, nem sempre há sentimentos quando vê e nem sempre é preciso ver para que haja sentimentos. Assim, seria melhor dizer “o que a mente não capta ou não entende o coração não sente”. Isso porque o coração apenas reflete o que se passa na mente

CADA POVO TEM O GOVERNO QUE MERECE.
Este provérbio, sim! Este é muito discutível, controvertido e não muito justo, uma vez que sua aplicação correta depende da forma pela qual o governante chegou ao poder. Assim, ele pode ser totalmente verdadeiro, totalmente mentiroso e parcialmente verdadeiro/mentiroso. Quando o governante é escolhido em eleições democráticas e livres e não cumpre seu dever trabalhando decentemente em prol da comunidade, ele pode ser duplamente enquadrado nesse provérbio, sem ser injustiçado por ninguém.
Pode ser considerado imerecido por quem não votou nele e merecido por quem o elegeu. É justo que quem vota errado tem que pagar pelo seu erro, mas como é impossível separar votantes e não votantes, aí toda a comunidade paga o pato. Então, não é uma comunidade inteira ou o povo inteiro que tem o governo que merece. Seriam apenas as pessoas que elegeram o governante ineficiente, o qual está motivando o povo a usar o provérbio acima. Por outro lado, se o governo é eficiente quem o rejeitou nas urnas não o está merecendo.
No caso de um governo tomado pela força, uma ditadura de esquerda, por exemplo, a maioria absoluta do povo não merece o governo cruel que tem. Como no caso de Cuba, cujo povo, boníssimo conforme se ouve falar, não merece o governo tirano que toleram desde 1959. Isto pra ficar aqui por perto, mais longe do Irã, Coréia do Norte, Líbia, Síria, outros países africanos, não se esquecendo dos regimes europeus que, graças a Deus, já viraram pó. Será que esses povos mereciam tais governos?
No caso da extinta ditadura brasileira, de direita, felizmente, o provérbio se enquadrava plenamente. Os comunistas subversivos e agitadores tiveram o governo rigoroso que mereceram. Senão a coisa teria degringolado para uma ditadura de esquerda, inspirada no tirano Fidel Castro e no cruel Che Guevara, que estavam influenciando as mentes malucas. Por outro lado, o restante da população, ou seja, a maioria ordeira e trabalhadora, também teve o bom governo que estava necessitando e merecendo.  Portanto, o provérbio supra citado é carregado de muita relatividade.

ENCERRANDO por enquanto esta série, digo ainda que não tenho conhecimentos específicos para tais objeções, mas confirmo que são apenas opiniões pessoais, acumuladas ao longo de minha vida, no exercício de minha curiosidade, porém as mesmas são absolutamente combatíveis. Os caros leitores, querendo, podem e devem se manifestar, até mesmo sugerindo outras máximas e ditados antigos para discutirmos, analisar e até dizer algumas bobagens sobre eles.  No entanto, não podemos esquecer, eu principalmente, de um outro ditado que não se pode contrariar:“quem fala muito dá bom dia a cavalo”, ou, com um pouco mais de elitização, “quem emite sons vocais em demasia saúda matinalmente o eqüino”.