É inquestionável que a inveja é um sentimento mesquinho e perverso, se olharmos apenas um de seus lados, eis que há dois tipos de inveja. Há a inveja maligna, que consiste em desejar para si todo o bem precioso que o outro possue. A pessoa dominada por este tipo de inveja pensa que o outro não merece nada de bom, dá por mal direcionado tudo o que outros possuem e que tudo deveria ser dela. Este tipo de inveja causa grande mal ao invejoso e ao invejado. É um sentimento perverso, que pode levar o invejoso a exterminar o invejado, consoante Caim fez a Abel, seu irmão, motivado pela suposição de que Abel tinha a preferência do pai, Adão, e também de Deus.
Por outro lado, há a inveja benigna, se é que podemos chamar assim, que, de forma aceitável, motiva o indivíduo a desejar bens semelhantes aos do outro, e não os do outro. Este tipo de inveja pode até ser benéfico, uma vez que ele impulsiona a pessoa a lutar para conseguir um bem semelhante ao que ela está invejando e desejando. Por exemplo: o Zé tem um carrão, o qual o Tonho acha muito bacana e tem uma baita vontade de possuir um igual. Como o Tonho não é dominado pela inveja má, ele deseja ter um carro igual, e não o que já é do Zé. Então, essa vontade vai motivar o Tonho a lutar para conseguir adquirir um carrão semelhante ao do Zé.
Desejar se equiparar aos outros é muito natural, desde que esse desejo não se transforme em inveja maligna ou mesmo num simples egoísmo. Imagina-se que todos, vez ou outra, sentem inveja de alguém. Temos inveja de muitas pessoas e gostaríamos de ser como elas. Temos inveja das pessoas bonitas, das inteligentes, das ricas e bondosas, das pessoas altruístas, das pessoas famosas que agradam ao público, das que têm muita saúde e outras boas coisas que a vida oferece. Eu, por exemplo, tenho uma inveja danada de quem sabe tocar um instrumento musical, como viola e sanfona. Se eu disser que não cultivo este tipo de inveja, estarei sendo hipócrita.
No entanto, garanto que não se trata de inveja perversa, pois, não desejamos o que é dos outros para nós. Desejamos apenas coisas semelhantes. Neste caso, não queremos vencer ninguém. Um empate está excelente. Todavia, falando por mim, não acho justo desejar somente as coisas boas que os outros possuem. Por que, então, nós não desejaríamos também as desgraças, as mazelas e os infortúnios dos nossos semelhantes? É ruim a gente desejar isso, hein!? Só desejamos coisas boas, o que é mais do que natural. Aliás, desde criança somos condicionados para isso, ou seja, desejar e possuir bens agradáveis aos olhos, ao coração, à mente e ao saldo bancário.
Dizem que “a ocasião faz o ladrão.” Assim, também o momento faz o invejoso, não obstante hajam aqueles que são dominados pela inveja de janeiro a dezembro. Esses são praticamente doentes. Quando uma pessoa está passando por uma fase financeira difícil ou por outra dificuldade qualquer, por exemplo, ela costuma ter inveja de quem está com muito dinheiro ou em situação mais favorável. Quando estamos doentes ficamos morrendo de inveja de quem está com saúde. Verdade ou mentira? Observem que a situação da hora está criando um invejoso passageiro. No entanto, se for uma inveja moderada e não contaminada pelo ódio, não deixa de ser normal.
Tempos atrás, lembro-me muito bem, eu fiquei desempregado, por opção minha porque não agüentava mais a pressão. Só que me arrependi muito de ter pedido demissão e entrei
em depressão. Durante a depressão, eu ficava morrendo de inveja de quem estava trabalhando, enquanto eu estava ocioso e não tendo rendimentos.
Eu ficava com inveja até dos garis trabalhando, quando via a alegria do gari Zé Paulo. Para dizer a verdade, eu ficava com inveja até dos defuntos em cujos velórios eu ia. Quando ouvia anúncios de falecimento, eu ficava numa tremenda inveja do falecido, pensando na possibilidade de trocar de lugar com ele. Ô inveja besta, ein? Nunca mais quero ter!
Dizem por aí também que a inveja é uma merda. Quanta generosidade! A inveja é mais do que isso, é uma fossa cheia de merda. Ela é um buraco cheio de dejetos, onde chafurdam o invejoso e o invejado. O invejoso entra nessa fossa porque quer, porque é egoísta, é ganancioso e perverso. Entretanto, acaba levando junto o invejado, que, quase sempre, nada a ver com o assunto, às vezes nem sabendo o motivo da inveja que causa. Eis que a inveja é tão perniciosa, tão nociva, tão nefasta, que acaba fazendo mal tanto ao invejado quanto ao invejoso. Há pessoas que não acreditam, mas muitas outras pensam que a vida do invejado costuma virar de ponta cabeça.
Todos deveriam evitar a inveja do tipo peçonhenta. Essa inveja perversa, que faz com que o objeto invejado vire alvo da ira do invejoso, cujo único desejo é se livrar do que lhe está incomodando e lhe fazendo concorrência. Foi esse maldito veneno que causou o rompimento dos laços fraternos entre Caim e Abel, irmãos de sangue, fazendo com que aquele acabasse por cometer o primeiro homicídio da humanidade. É triste saber que a sanha assassina do homem foi inaugurada entre parentes e por motivo tão mesquinho. Nós que moramos em cidade pequena vemos todos os dias exemplos de situações dessa inveja maligna e, vez ou outra, suas conseqüências.
Uma palhaçada é o mínimo que se pode dizer sobre quem tem inveja peçonhenta de pessoas bem sucedidas na vida. Principalmente daquelas que se deram bem agindo honestamente. Neste caso, temos que ter admiração e desejo de seguir os bons exemplos. O que devemos fazer de mais correto é desejar que todas as pessoas se dêem bem na vida, pois quanto mais gente feliz houver mais segurança pública e mais paz social. Também não devemos ter inveja de quem subiu de maneira espúria, como sobem os políticos e alguns outros meliantes. Destes, temos que ter pena, pois sofrerão muito na hora de prestar contas ao Criador.
Lamentavelmente, há pessoas que têm inveja de tudo. Esquecem-se dos bens que Deus já lhes tenha dado, para desejar um bem do outro, não obstante os seus bens possam já ser melhores, mais volumosos e mais valiosos. Neste caso, a inveja cega a pessoa, que passa a não ver que o outro talvez só possua aquilo que ela está invejando, só pela perversa mania de achar que o sol pode brilhar só para si. Maldosa suposição, pois o sol nasceu para todos, apesar de que a sombra, de vez em quando, é muito melhor. Portanto, vamos eliminar a inveja maligna da nossa vida, pois, além de ser um grave defeito, uma mania feia que leva à destruição, é um cabeludo pecado capital.